Querido diário,
já fa um mês que eu estou morando nessa casa nova. Minha casa. Conheço cada cantinho (menos os que ainda estão no alto), já consigo correr sem dar muitas cabeçadas, porque já sei do que tenho que desviar. Já domino totalmente papai e mamãe. Com mamãe aprendi um truque infalível: ligo meu motorzinho e ela faz tudo o que eu quero. Não preciso nem pedir, é muito fácil. Com papai é mais complicado. Ele às vezes me tira do sério e eu tenho que tascar a unha. Queria ver se ele ia gostar se eu puxasse os bigodes dele ou se eu fizesse cosquinha no céu da boca dele. Fico passada quando ele faz isso comigo. Mas me vingo. E se ele continua fazendo, é porque gosta do que eu faço também.
Há uns 15 dias tive uma experiência um pouco assustadora. Mamãe veio com uma toalha e me enrolou. Já fiquei meio assustada, mas depois ela começou a andar e os cheiros que eu sentia eu não conhecida. Tudo muito estranho. Mas pior mesmo foi quando eu comecei a ouvir uns barulhos horríveis, altos. Tentei fugir, mas mamãe não deixou. Aí depois chegamos num lugar com outros cheiros estranhos. Tinha cheiro de comida, mas também tinha outros cheiros muito suspeitos. Não gostei. Mas se eu achava que ia parar por aí, eu me enganei. Depois uma moça e um moço cortaram minhas unhas (fiquei P da vida, porque depois não conseguia mais subir onde mamãe e papai dormem…), enfiaram um monte de coisas na minha orelha, futucaram (é bem verdade que depois disso parou de coçar! rs), me deram um negócio horroroso pra tomar e, MUITO PIOR, me deram um beliscão no bumbum que fucou doendo até o dia seguinte. Olha, naquele dia eu fiquei realmente muito chateada. A parte boa é que eu ganhei um lugar bem legal pra dormir. Olha só:

Mas acredita que agora já não tem taaaaanto espaço assim pra mim? Acho que cresci, isso é possível? Tô me achando mais comprida, pulo mais alto e chego a lugares que eu não conseguia chegar, pelo menos não com tanta facilidade!
Ah, teve uma coisa que eu não gostei. Minha mãe comprou uma outra comida pra mim. A comida é bem gostosa, mas não está me fazendo bem, ando soltando pum! Tomara que minha mãe compre outra comida, porque essa tá me fazendo passar vergonha.
Ela comprou um trequinho rosa pra colocar meus potinhos de comida. Ela disse que era rosa pra combinar com minha casinha. Eu adorei. Adoro rosa e ela sabe. Combina com minhas patinhas.

Andei ajudando minha mãe numas coisas que ela faz. Mas o mais legal mesmo é quando sobra algum brinquedinho pra mim. Adoro o barulho que as bolinhas de papel vegetal fazem no piso de madeira. Ai ai, fico sonhando com isso!


De uma forma geral, as coisas andam muito boas pra mim. É meio chato quando eu fico sozinha em casa, mas aí eu aproveito pra dormir pra ter bastante energia pra gastar quando eles chegam em casa.
Eu só tô meio desconfiada desde ontem. Minha mãe começou a colocar um monte de coisas dela dentro de uma caixa. Acho que ela vai ficar fora por uns dias. Tentei ir junto, mas ela disse que não posso ir. Fiquei um pouco triste, mas tomara que ela volte logo…






Nós, biólogos, somos considerados muito esquisitos pelos amigos não-biólogos. Somos felizes de calças cáquis e pares de botas, jalecos, aventais e luvas, mochilas e carros imundos. Não paramos de trabalhar nunca: sempre há algo a ser feito e têm que nos obrigar a aceitar a aposentadoria. Achamos lindo ver uma semente germinar, uma flor desabrochar, filhotes de animais “esquisitos” nascerem. Podemos passar horas observando o comportamento das criaturas mais estranhas. Nos sentimos em casa dentro da floresta, com mosquitos, carrapatos, aranhas e cobras. Ou na praia, num lago, num laboratório. Adoramos gráficos, contas, estatística, simulações de computador e equipamentos complexos de última geração. Temos uma linguagem própria e costumamos nos esquecer que as outras pessoas não nos entendem. A mídia nos detesta, diz que não sabemos conversar. Temos certeza de que a nossa é a melhor profissão do mundo: cuidamos da vida. É sem dúvida uma das carreiras mais altruístas: zelamos pelo bem estar da humanidade. Nossa vaidade se restringe ao número de trabalhos publicados e ao número de alunos que orientamos. Alguns de nós nasceram com a vocação se ser professor e somos irritantes porque queremos ensinar todo mundo o tempo todo. Se nos for permitido, trabalhamos de domingo a domingo, porque “aquele” modelo está rodando no computador ou porque “aquele” trabalho de campo não pode ser deixado pra depois ou porque há sempre textos a ler e artigos a publicar. Damos palestras por prazer. Nossa ambição não é ganhar dinheiro, é publicar na Nature. Não queremos ser famosos, queremos ser úteis.
Acabei de passar para a turma do primeiro período o impactante documentário vencedor da Academia Européia de Filmes em 2004, O Pesadelo de Darwin (



